sexta-feira, 19 de abril de 2013

Entre a pipoca e o botão “x”



Como o espectador encara as adaptações feitas entre videogames e filmes, e como o processo de produção influencia nessa visão


Até alguns anos atrás existiam dois universos completamente diferentes dentro do entretenimento: o do cinema e o dos videogames. Ambos necessitam de um processo criativo muito semelhante e, unidos, formam uma das potências que mais ganham destaque na atualidade, mesclando imaginação, emoção e envolvimento e conquistando seu público a cada lançamento no mercado.

Bruno Mikoski e Rodrigo Bellão, diretores de criação da empresa de desenvolvimento de jogos digitais Monster Juice – The Brave Games Studio, afirmam que o número de gamers hoje cresce em ritmo acelerado. Com o maior acesso às tecnologias, a inclusão digital e o lançamento de consoles, como o Nintendo Wii, o preconceito de que jogar é uma atividade apenas de “nerds” desaparece lentamente. Além disso, há atualmente jogos de celulares para quem não costumava jogar. Todos esses fatores contribuem para o aumento deste mercado, que agrada cada vez mais os mais diferentes públicos. “Acredito que os velhos de nossa geração vão ser jogadores. Eu não tenho a menor dúvida disso”, diz Mikoski.


"007: Goldeneye" (1995) foi fielmente adaptado para o game,
se tornando um dos jogos mais vendidos nos anos 90
A partir da década de 90, com a ascensão do mundo dos games, passou a ser comum ver filmes baseados em jogos, como o mundialmente famoso “Lara Croft: Tomb Raider”, e jogos baseados em filmes, como “007: Goldeneye”, que foi um dos jogos mais vendidos nos anos 90, ultrapassando a marca dos US$ 250 milhões apenas nos Estados Unidos.
Consumidores de ambos os produtos já perceberam que o  processo de produção e construção de filmes e games são muito parecidos. Para o diretor da Evolução Filmes, Diego Stavitzki, a convergência entre os dois é natural. “O vídeo game proporciona uma experiência de interação entre jogador e narrativa mais profunda que o cinema, visto o tempo que o jogador fica em contato com o jogo, conhecendo cada vez mais a história e o universo dos personagens. Quando o jogador vê este repertório transportado para as telas do cinema, a identificação é imediata”, afirma.
Stavitzki também acredita que a adaptação de jogos para filmes é um exercício de transporte de ideias que muda apenas de um suporte para outro e ressalta que o elemento principal a ser construído e moldado é o roteiro, um dos itens mais importantes no cinema. “Para mim, o maior desafio é transformar um personagem e uma história superficial em personagem de verdade, com emoções reais, em quem o público acredite e se identifique. É na construção do roteiro que encontraremos o ‘pulo do gato’ ou ‘save the cat’ como diz o autor Blake Snyder. Só assim o filme terá uma carreira de sucesso”.

Stavitzki acredita que adaptações cinematográficas de jogos podem ter sucesso se forem bem executadas. “O sucesso dos filmes baseados em jogos se resumem em uma simples receita: um bom roteiro”. Ele relembra o filme “Lara Croft: Tomb Raider” (2001), no qual a atriz Angelina Jolie dá vida à heroína dos games.  Para ele, o diretor Simon West trabalhou impecavelmente com detalhes característicos do jogo e com a trilha sonora, porém foi um fracasso de bilheterias por conta da expectativa projetada pelo público. “Muitos apontaram que não houve empatia pela personagem interpretada por Angelina com o público e, por isso, o filme não foi o sucesso esperado. A frieza da personagem dentro do jogo não funcionou nas telonas. Parece que o público tem expectativas diferentes nestas duas plataformas”, afirma o diretor curitibano.

O diretor Diego Stavitzki diz que a adaptação Lara Croft: Tomb Raider (2001) foi fiel ao jogo, mas a atuação de Jolie não agradou ao público
O desenvolvimento de uma boa trama é um importante ponto a ser analisado no processo de adaptação de filmes e jogos, afirma Rodrigo Bellão. “O jogador que procura determinado jogo por causa de uma história que já conhece, já tem um laço diferenciado com a trama, diferentemente do jogador que se interessa por um jogo por aspectos como a projeção gráfica e o gameplay, por exemplo, e que demora a ficar entretido com a história de um game”, diz. Ele observa que o mesmo ocorre em produções cinematográficas, onde espectadores que procuram filmes por conhecerem a trama originalmente vinda de um jogo de videogame, esperam assistir e reconhecer os mesmos detalhes, personagens e o ‘feeling’ que o game proporciona ao jogador.
Vinicius Godoy, professor de Jogos Digitais da PUCPR, acredita na existência de filmes que deram muito lucro aos seus produtores por serem baseados em videogames e que ganharam a atenção de jogadores e espectadores. “Um exemplo de filme que se tornou sucesso é o Mortal Kombat, que agradou a visão dos jogadores mais fiéis”, diz. “Os novos jogos da série Mortal Kombat que estão sendo lançados recentemente, passaram a ter histórias mais elaboradas, principalmente para serem possivelmente adaptados para filmes”.


O lendário jogo Mortal Kombat ganhou uma versão cinematográfica que, segundo Vinicius Godoy, agradou aos espectadores e gamers fanáticos
O professor também mostra um fenômeno recente da mescla cinema e games, os chamados ‘filmes interativos’. “Um exemplo de jogo que ganhou fama por ter uma boa trama, uma boa trilha sonora e produção gráfica é ‘Heavy Rain’, da Quantic Dream. A ação se torna quase secundária, pois a trama é muito bem fundamentada”, afirma Godoy. Ele conclui dizendo que o grande desafio do cinema é produzir uma adaptação que não resulte na perda de vínculos entre jogador e jogo e que agrade ao público que não tenha atenção voltada aos games. “O público que cresceu jogando [os games] é muito crítico e observador nesse ponto”, finaliza o professor, que confessa ser um gamer desde pequeno.


O ' filme interativo' Heavy Rain, para Godoy, é um jogo que ganha destaque pela trilha sonora e pela trama, o que faz com que o jogador queira saber qual o final da história

Em suma, é perceptível que, com a fusão do universo cinematográfico e do universo ‘gamer’, as formas de produção de adaptações passam a ser mais elaboradas, garantindo efeitos visuais detalhados, uma trilha sonora emocionante e histórias que têm a capacidade de tirar o fôlego de seu público. A realidade e a ficção andam de mãos dadas nesse conjunto, tornando ainda mais nítida a relação entre o espectador e a tela, e evidenciando os efeitos que um bom roteiro – como disse Stavitzki – podem causar no nosso imaginário.



Texto: Isabela Bandeira Saciotti e Helena Bianchi Góes
Reportagem: Helena Bianchi Góes e Natalia Concentino
Edição de imagens: Isabela Bandeira Saciotti 

1 comentários:

Celina Alvetti disse...

Ok a republicação da matéria da Cineacademia, mas ela não conta como postagem no blog da agência.

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